A Cultura da Maconha no Uruguai e a Expocannabis 2017

December 23, 2017

 

A primeira coisa que passa pela cabeça ao dar uma volta ao centro velho de Montevideo é sobre como nós brasileiros podemos estar tão perto geograficamente do Uruguai, mas ao mesmo tempo, tão distantes em termos ideológicos. Isso também não quer dizer que a terra onde Pepe Mojica foi presidente é composta por um ideal social que contempla totalmente o dele.

    O Jornal VOCES de 7 de dezembro de 2017 traz como matéria de capa o questionamento sobre a maconha livre e o narcotráfico. Algumas opiniões ali contidas se dirigiam ao Estado como o traficante de cannabis aos alunos que fumam seus cigarros de maconha logo pela manhã, antes de entrar na escola, e outras, reclamavam sobre o cheiro comum da maconha nas ruas do Uruguai como uma forma de invasão à liberdade dos transeuntes de respirar ar puro.  (Reflito comigo, sobre o que pensariam se soubessem que a poluição de São Paulo equivale a fumar cinco cigarros de tabaco por dia, quando se vive em espaços com grandes fluxos de veículos?). De certo, o tráfico ainda não acabou mesmo com a maconha sendo legal. Nem é preciso acabar de ler este jornal. Pois, como a compra e a venda só é permitida para os cidadãos uruguaios, não é difícil saber que é possível encontrar o “prensado” paraguaio no mercado paralelo para turistas.

 

 

 

     Aliás, no Museu da Cannabis de Montevideo esse era o debate com os curadores. Segundo um deles, este é o grande paradigma da estatização da maconha. Mas por outro lado, é fácil constatar que como a maconha não pode ser livremente vendida ela é facilmente compartilhada. As amizades instantâneas se  formam neste Museu, que demonstra os usos industriais e culturais da cannabis, deixam claro que informação, resistência contra os ideais colonizadores e conscientização política fazem parte da cultura cannabica do  Uruguai.  O perfume das plantas, os mates e a simpatia de toda equipe do lugar criam uma atmosfera, que de tão prazerosa, era difícil se despedir.

    Cabe lembrar que o Museu da Cannabis, tem uma parte que homenageia a Alicia Castillo, ativista que teve forte influência na política sobre a maconha no Uruguai, e orgulhosamente, me lembro que ela já vendeu seus livros “Cultura Cannabis” na Ultra420, quando morou no Rio de Janeiro, na primeira década do ano dois mil.

     Ainda no Museu, a partir da distribuição da revista de bolso Guia Cannabis se podia ter as referências da 4º Expocananabis, exposição que ocorreu nos dias oito, nove e dez de dezembro de 2017. Toda a programação de palestras e atividades estavam agendadas na revista.

    O evento, realizado no LATU, Laboratório Tecnológico do Uruguai é a prova de como a cultura cannabica uruguaia está amadurecendo com conhecimento e ciência, acima de tudo. A Expocannabis, se faz um acontecimento que deslegitima a visão conservadora que estigmatiza o usuário de cannabis e despreza toda a ciência que existe em torno desta planta de grande potência para o uso medicinal, industrial e recreativo. Logo na entrada, dezenas de pés com buds brotando recepcionavam os visitantes. Ao lado havia uma clínica médica, onde era possível o acesso à consulta sobre os tratamentos adequados com a medicina cannabica.

 

   

Num ambiente de maioria masculina, onde o idioma prevalecente era o português, o dia de sol, céu aberto, música ao vivo e diversas degustações em diferentes parafernálias, era nítida a satisfação e a conexão entre os participantes que ostentavam seus grandes copos verdes com o logo da exposição.  Prudentemente, a cerveja só podia ser vendida depois das dezessete horas e era evidente no dia, que o stand de crepes, extração de óleo e o de bancos de sementes como a SensiSeeds eram os mais lotados.

    Havia uma satisfação grande entre os membros dos clubes cannabicos, pois como é permitido apenas plantar seis pés, os uruguaios fazem associações e parcerias com várias produções diferentes, quando não possuem a licença para adquirir em farmácias especializadas. Cabe também lembrar, que segundo os expositores, a Expocannabis do ano passado não tinha esta variedade de degustações, pois a produção apenas estava no começo, ao contrário desta última.

 

 

 

    A exposição destacava vários produtos para cultivo, sementes, métodos de extração de óleo e algumas roupas de cânhamo. Mas como ainda não há uma vasta produção de matéria prima para o uso têxtil, por exemplo, as diversas opções de mix de tecidos de cânhamo com outras fibras apresentadas eram apenas do mostruário que o espaço do Museu da Cannabis na exposição, demonstrava. O que faz lembrar do mesmo mostruário usado para o desenvolvimento da linha de roupas de cânhamo da Ultra 420 nos anos noventa. Na época, se importava o tecido elaborado com as fibras da maconha, misturadas com fibras de linho. E mós desenvolvíamos linhas de saias e calças, em produção contínua, até a disparada do dólar e os altos impostos inviabilizarem as importações. O que leva a contar a economia brasileira como mais um entrave ao desenvolvimento do mercado da cultura cannabica no Brasil, para além do conservadorismo e da ignorância das mentalidades dos representantes políticos brasileiros.

    Embora haja uma cultura cannabica forte no Uruguai, a política do país em torno do tema não tem prioridade mercadológica, não há várias head shpos como em Amsterdam, as farmácias autorizadas tem comunicação discreta, onde as folhinhas não são chamativas.

     O cheiro de maconha de boa qualidade que vinha das escadarias da Intendencia de Montevideo, sede principal do XXXI Congresso ALAS da Associação Latino Americana de Sociologia, que acontecia na mesma época da Expocannabis, era desprezado pela enorme quantidade de professores, alunos e pesquisadores (visivelmente bem emancipados sobre esta questão) que iam lotando o auditório do espaço para assistir palestra de fechamento do evento com ex presidente do Uruguai e responsável pela estatização da maconha, Pepe Mujica, cujo o qual, cabe aqui se apropriar de sua frase de destaque na palestra: - Que se dane a imposição do mercado, o que importa são as pessoas felizes!

    E em Montevideo, sem ver crianças pedindo esmolas, sem nenhum sinal de pobreza extrema, sem viciados em crack perambulando pelas ruas, com escolas públicas bem cuidadas e de qualidade, onde a liberdade individual é respeitada e o vinho de excelente qualidade e com bom preço – certamente,  se faz possível enxergar o Uruguai como um país onde os seus cidadãos parecem ser bem mais felizes que nós, brasileiros.

 

 

 

Claudia Ferraz

 

Co-fundadora da Ultra420, mestre em Antropologia, doutoranda em Ciências Políticas pela PUC-SP. Membro do Grupo de Estudos inscrito no CNPQ: Juvenália - Culturas Juvenis: Comunicação, Imagem, Política e Consumo, do Programa de Pós Graduação da Faculdade ESPM.

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